Blog do Bravo

ESCRITO POR DANIEL BRAVO

Eficiência e Eficácia

Eficiência trata de como fazer, não do que fazer. Trata de fazer certo a coisa, e não fazer a coisa certa (…) Já a eficácia trata do que fazer, de fazer as coisas certas, da decisão de que caminho seguir. Eficácia está relacionada à escolha e, depois de escolhido o que fazer, fazer esta coisa de forma produtiva leva à eficiência.*

É claro que todas as organizações de todos os tipos precisam lidar com esses conceitos e sua devida aplicação. Não seria diferente com o trabalho desenvolvido com jovens.

As definições aqui citadas já dizem o suficiente. Por isso, quero apenas dar minha impressão pessoal dizendo que em um constante repensar é preciso saber se o que se faz está sendo feito certo e no momento certo. Para isso é preciso driblar a ansiedade de realizar grandes idéias antes da hora e torná-las grandes erros; evitar a falta de observação que ocasiona em desconhecimento do ambiente de atuação e, sobretudo usar a criatividade para ou criar algo novo que seja totalmente relevante e/ou copiar o que já existe caso a reflexão cuidadosa que trouxe a estratégia para cá venha de encontro com as necessidades locais.

Existem inúmeras formas de se construir um trabalho com juventude, no entanto, é preciso saber como e quando usar cada uma para ser eficaz, e caso decida usar, fazê-lo com excelência para ser eficiente.

* A diferença entre Eficiência e Eficácia, por Paulo Krieser. Disponível aqui

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Bases para o trabalho com juventude: Oportunidade

Encerro essa série de recomendações afirmando que todo o trabalho feito comjovens deve direcioná-los para a ação. Não sou a favor do ativismo que aprisiona o jovem a uma agenda muitas vezes irracional e vazia de significados. A bandeira que levanto é que todo jovem deve ser envolvido como participante do ministério de Cristo.

Precisamos lutar contra nossa própria tendência de produzir platéias ao invés de equipes. As igrejas já oferecem muitos cargos de telespectadores, não precisamos de mais. O jovem precisa encontrar o espaço onde ele poderá desenvolver o seu talento e a sua vocação de forma criativa e inspiradora. Para tanto é preciso que de forma prática, tracemos um perfil de cada jovem. Assim, cada um será incentivado a servir ao Senhor fazendo uso das suas habilidades.

Por exemplo, uma menina que trabalha em uma empresa na área de recursos humanos pode participar de um projeto social onde ela vai ensinar outras pessoas como se portar em uma entrevista de emprego ou até mesmo o jeito certo de se preparar um currículum. Existem inúmeras maneiras de usar o que sabemos fazer de melhor para a glória de Deus. Aliás, fazer o que sabemos da melhor forma que podemos já é em si glorificar a Ele.

Não podemos desprezar o preparo profissional e nem os talentos naturais que cada um possui. O jovem precisa entender que servir a Deus inclui ser usado em tudo o que ele faz, desde o seu trabalho até o seu lazer. Já os líderes devem conduzir esse processo entendendo que o Reino de Deus vai muito além da Igreja e que seu domínio se estende por todos os lugares onde houver um discípulo de Jesus.

Cada jovem deve se perceber como um sinal do amor e da presença de Deus nos lugares onde estiver.

Paixão pela Juventude

Me preocupa um pouco a visão que alguns alimentam sobre o que é ser pastor ou líder de um ministério com jovens e/ou adolescentes.

Para alguns, pastorear um grupo de jovens significa subir no trampolim ministerial para demonstrar sua habilidades e assim, como se estivesse em uma vitrine, estar a disposição de qualquer convite.

Geralmente os convites mais desejados são os de assumir uma grande igreja. Às vezes outras propostas surgem, mas creio que essa seja a mais tentadora.

Não acho errado que o histórico ministerial de alguns pastores siga essa ordem, primeiro um ministério com jovens, adolescentes ou qualquer outro e depois um ministério a frente de uma igreja inteira. O que acho errado é enxergar o trabalho com faixas etárias como um trabalho menor de pouca importância por ser ele de natureza auxiliar. Se existem fatores além desse que impulsionam o ministro para uma possível ou desejada saída, tudo bem, “aí já é outra história”.

Para liderar o ministério com jovens, é preciso paixão. E assim como Paulo (Efésios 3.14), devemos por essa causa, colocar-nos de joelhos e compreender que ainda há muito o que fazer.

Aqueles que têm a oportunidade de liderar um trabalho como esse devem se sentir privilegiados e desafiados. Porque embora exista muita alegria, ele também oferece muitas dificuldades. Por isso, eu gostaria que você desse atenção a um projeto que a Juventude Batista Brasileira está desenvolvendo e que se chama “Paixão pela Juventude”.

Para que existam jovens apaixonados por Cristo precisamos de líderes apaixonados por eles.

Daniel

Bases para o trabalho com juventude: Cuidado

Erroneamente o trabalho daqueles que lideram ministérios com juventude, tem se resumido a realização de bons eventos. Eles são um braço fundamental para a conclusão de um objetivo maior, no entanto, caímos em um erro grave se os enxergamos como o fim em si mesmo. Por experiência própria posso afirmar que é preciso bem mais.

Notei que o culto jovem (ou qualquer outra programação com início e conclusão pré-determinados), por mais interessante que seja não supre a necessidade que o jovem tem de ser cuidado. Esse é o começo e o fim de todo ministério com juventude, a arte de cuidar.

Percebi isso em um culto no qual preguei sobre a cruz. Servi-me de inúmeros recursos visuais. Desde uma cruz de madeira que ficou posicionada ao meu lado durante toda a mensagem até um solo de uma jovem que formou um fundo musical enquanto eu orava concluindo o sermão. No apelo chamei-os a martelarem na cruz (tinha prego e martelo de verdade) um papel no qual escrevessem sentimentos, vícios, emoções, bens e/ou pessoas que eles gostariam de entregar aos pés de Jesus. O culto acabou e no coração existia uma sensação de dever “não” cumprido.

Durante a semana conversei com um dos jovens que foi a frente. Em outras palavras ele me questionou: “E agora?”

Acho que essas poucas palavras servem para nos mostrar que nossa missão se cumpre na continuidade. Ou seja, nossa ação não pode acontecer apenas em um determinado momento e circunstância, ela precisa existir. Vejo isso como uma demanda visível nos nossos dias e, sobretudo no ministério de Jesus que nunca encerrou seu ministério. Tomemos, pois seu exemplo e abracemos a grande comissão (Mateus 28.16 a 20) que nos convida gentilmente a ensinar aos nossos jovens tudo quanto ele nos deixou de forma prática e vivencial através do discipulado.

O discipulado é a idéia de sermos extensões do amor de Deus através do cuidado. No entanto, até o cuidado, se visto como apenas uma atitude de auxílio em uma hora de dor e fragilidade é finito. Porém, se percebemos o cuidado como a essência do relacionamento de amor, mergulhamos num maravilhoso poço sem fim chamado eternidade.

A transformação que desejamos presenciar em nós e naqueles com quem vivemos, só será fruto do nosso ministério quando nos propusermos a fazer discípulos. E essa proposta requer de nós envolvimento e disponibilidade. Envolvimento para nos entregarmos e sermos nós mesmos e não um personagem institucionalizado; e disponibilidade para compartilharmos não só algumas horas, mas a vida.

Não somos chamados para cuidar de multidões. Somos chamados para cuidar de pessoas.

Daniel

Bases para o trabalho com juventude: Autonomia

Eu acredito que o trabalho com juventude nas igrejas deve estar fundamentado em três elementos. Começo pela autonomia.

Pense na pré-modernidade (era medieval) como o momento no qual a religião manifestava sua centralidade no controle da opinião pública, além é claro, de outros aspectos. O que era certo ou errado era determinado pela Igreja que detinha o poder de interpretar o que Deus pensava, ou seja, o certo. Já na modernidade (pós-medieval), o iluminismo diz que o indivíduo tem condições de refletir e encontrar a verdade sobre a qual firmar suas decisões.

A igreja aprendeu a lidar com essa situação moderna. Em uma época onde os grandes avanços tecnológicos surpreendem e estabelecem a esperança de um mundo melhor, o discurso da Igreja se estabeleceu em pré-suposições muito bem elaboradas sobre como todas as coisas funcionam, inclusive a mente humana.

Assim, para dizer a um jovem qual deveria ser a sua postura sobre o sexo, bastava elaborar um bom sermão no qual se afirmasse que a Bíblia condena a prática antes do casamento. No entanto, em tempos onde se duvida se ao menos há verdade absoluta, a Bíblia como padrão a ser seguido é duramente questionada.

Não que a Bíblia não deva mais embasar nossa mensagem, mas temos que direcionar os nossos jovens a expor os princípios bíblicos de forma prática e relacional. Temos que fornecer a eles material necessário para que diante das inúmeras situações que surgem, sejam capazes de distinguir o que vai contra ou a favor da Palavra de Deus.

A autonomia que damos a eles deve libertá-los para o exercício de sua fé nos seus inúmeros meios de convivência, onde têm de dialogar com as mais variadas realidades. Do contrário, o cristianismo que damos a eles só faz sentido quando estão sentados na igreja ou quando conversam com os amigos crentes.  Portanto, se encharcamos nossos jovens e adolescentes com jargões evangélicos e os treinamos para terem aquele típico comportamento de “crente”, a sociedade vai apenas estranhá-los como faz com tudo o que é esquisito!

Não podemos mais obrigá-los a acreditar em tudo o que dizemos. Precisamos mostrar porque acreditamos e que isso é de fato real.

A Igreja e o Jovem?

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Nessa frase cai bem o ponto de interrogação. Aliás, só ele cabe, pois a exclamação é imprópria para um tempo que não é de admiração e o ponto final está em desacordo porque ainda estamos longe de concluir esse assunto.

Não há motivos para nos extasiarmos, pois de forma geral há uma distância quilométrica entre o jovem e o perímetro eclesiológico. A igreja, salvo algumas exceções, caminha por estradas diferentes das que a juventude tende a se aventurar. Além disso, inúmeras adotam um ritmo lento demais para acompanhar as novas gerações.

Nem ao menos nós, a igreja, olhamos para onde estamos indo. Somos fortemente influenciados a seguir pelo trajeto mais comum, mais fácil e mais largo mesmo sabendo que essa opção foi condenada por Deus.

Embevecemos-nos com estratégias e métodos que dão certo por aí e esperamos que cheguem ao nosso aprisco como soluções para todos os problemas. É largo copiar e colar a ideia do vizinho. Entretanto, é estreito criar.

A igreja se afasta do jovem quando o trata como mais uma tarefa que precisa ser delegada e realizada por alguém, isolando-o da sua agenda. Não é difícil achar igrejas nas quais a juventude não é vista como o presente. Nestas comunidades as novas gerações são por vezes, mesmo sem querer, caladas, maquiadas e estereotipadas. Sendo claro, acreditamos que cânticos no culto da noite, acampamentos bem animados e um rodízio de pizza de vez em quando bastam. São importantes, mas não essenciais.

Essencial é a igreja fazer parte da vida do jovem e acompanhar as mudanças que ele sofre quando enfrenta a pressão social de se realizar no aspecto profissional e financeiro a qualquer custo, quando é desafiado a ser santo em uma sociedade na qual a pureza é tida como relativa e ao se deparar com um mundo sem respostas no qual percebe que a sua “independência” não é suficiente.

A responsabilidade maior nesse processo é, sem dúvida, da igreja. O jovem, no entanto, deve encarar a Igreja e o mundo de outra maneira. Ele deve, parafraseando G.K. Chesterton, se questionar se é capaz de odiar o mundo o bastante para mudá-lo e, no entanto, amá-lo o bastante para achar que a mudança vale a pena. No entendimento de que o mundo a ser odiado é tudo que há em notável desacordo com o eterno propósito de Deus e o mundo a ser amado são os homens e mulheres criados por Deus e por ele profundamente amados na cruz, o jovem tem de ver o seu universo como o lugar no qual Deus o quer atuando em sua temporal missão.

Assim, ao invés de ver a Igreja como apenas mais um item do seu calendário semanal, tem de perceber que ela deveria estar permeada em toda a sua rotina. Afinal, falamos de igreja não como o edifício que visitamos aos domingos, mas como o selo que nos identifica num mundo entregue ao caos e à desordem.

A Igreja tem de perceber que os jovens são o futuro dela. Porém, prefiro afirmar que o próprio jovem deve olhar o horizonte da Igreja como o alvo da sua conquista.

A relação está desgastada. Porém, como foi dito no início, ainda falta muito para colocarmos um ponto final. A Palavra ainda me diz que Ele é fiel para completar a obra que um dia começou. E é nessa promessa que sobrevivo plantando, chorando e colhendo.

Texto produzido para a edição de O Jornal Batista especial sobre a juventude, que você pode baixar na íntegra, em pdf, aqui

A Metanóia coletiva

[Para o Pedro]

Cada um, cada um. É assim que dizemos, quando, entre outras coisas, queremos destacar a nossa indivualidade. Termo, que ao contrário do que muitos pensam, não é sinônimo de individualismo. O primeiro significa a valorização do conjunto de qualidades que constituem um único indivíduo, a sua originalidade; e o segundo a falácia de poder existir separadamente, de ter os seus direitos sobre os da sociedade. Contra a metanóia do Espírito está o individualismo. Nesse texto eu estou falando de ser igreja. Estou me perguntando, assim como Chesterton, se o homem comum é capaz de odiar o mundo o bastante para mudá-lo, e, no entanto, amá-lo o bastante para achar que a mudança vale a pena. No entendimento de que o mundo a ser odiado é tudo que há em notável desacordo com o eterno propósito de Deus e o mundo a ser amado são os homens e mulheres criados por Deus e por ele profundamente amados na cruz. Ser Igreja é ser Metanóia [ou vice-versa]. É levantar a cabeça e parar de olhar para o belíssimo umbigo que eu tenho.

Essa mudança se dá no contexto cultural e temporal no qual vivemos e no qual a igreja estamos inseridos. A Metanóia deve afetar o nosso coração e nos proporcionar a visão da sujeira que invade o mundo e suja os nossos sapatos porque também estamos nele. No mundo estamos e no mundo devemos ser luz e não uma penumbra que radia uma claridade que ao mesmo tempo ilumina e encoberta. Ou somos luz ou trevas. Quando somos individualistas somos igreja somente no domingo, porque no fundo, nos basta. Em contrapartida, quando vivemos pela coletividade abrimos mão do exclusivismo da Igreja e convidamos o mundo [o que deve ser amado] para o nosso meio. Toda criação aguarda ansiosa pela manifestação da glória de Deus em nós. Todos nos observam e esperam que sejamos olofotes. A responsabilidade é nossa. Ser Igreja é entender que nosso viver é a melhor estratégia de proclamar as boas notícias da salvação. Os pés formosos são aqueles que por onde passam deixam pegadas de alguém transformado [Rom 10:15]. Nesse contexto as palavras não são tudo. Fico com o exercício proposto por Nietzche quando ele diz que se mais remidos se parecessem com remidos, mais fácil me seria crer no redentor.

Em Cristo,

Daniel